Quem é o homem que chamou a atenção do país para a violência do Rio

Publicada em 22/04/2007 no Click 21

Por Cristina Cople

rio-de-paz-2Um protesto pacífico estampou as capas dos maiores jornais do Brasil, na última terça-feira (17). O ONG Rio de Paz espalhou 1300 rosas vermelhas pelas areias da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Como a iniciativa ganhou tamanha proporção é uma surpresa até mesmo para o coordenador do movimento, Antônio Carlos Costa. Esta semana até a rede americana de notícias CNN entrou em contato para divulgar o trabalho dele.

“Estou profundamente feliz pelo que está acontecendo. Não tinha idéia de que poderíamos chegar aonde nós chegamos. Conquistamos as primeiras páginas de jornais, além dos telejornais”, diz Antônio. “Uma forma de protesto nova foi criada e vai fazer parte da cultura do país. Não é preciso muita gente para chamar a atenção e mobilizar as pessoas”.

Esse carioca, de 44 anos, casado com Adriana e pai de dois filhos, Pedro (17) e Matheus (15), poderia se render ao conformismo já que tem uma vida tranqüila e não teve parentes ou amigos vítimas de violência. Ele é teólogo, doutorando de uma universidade francesa e vive em um condomínio de classe média alta em Niterói. Por ter dupla cidadania, Antônio chegou a pensar em viver no exterior, mas os ataques terroristas fizeram com que ele ficasse por aqui mesmo. Agora a violência bate à sua porta.

“Eu não conseguiria dormir tranqüilo achando que deveria fazer alguma rio-de-paz-3coisa pela minha pátria. Não quero parecer piegas, mas o coração fica aflito”, diz. “Temos amigos nos Estados Unidos preparados para nos receber caso percebam que a nossa segurança corre perigo, mas não quero nem pensar nessa possibilidade”.

CONSCIÊNCIA

 A aflição foi mesmo se acumulando, até que ele resolveu dar um basta. Primeiro, o choque com as notícias sobre a chacina de 29 pessoas nos municípios de  Queimados e Nova Iguaçu, em março de 2005. Depois, foi o caso do ônibus da Viação Itapemirim, que fazia o trajeto entre Cachoeiro de Itapemirim (ES) e São Paulo, incendiado ao passar pelo viaduto que liga a rodovia Washington Luiz à avenida Brasil. Vinte e oito passageiros estavam a bordo e sete morreram.

 A partir desse momento, o teólogo não conseguiu mais conter a indignação. “Senti vergonha de morar no Estado e conviver com isso pacificamente. Começamos a realizar atos públicos”, diz. Até agora foram quatro: pessoas vestidas de preto com velas nas mãos em plena Cinelândia, no centro do Rio; mil pessoas deitadas no chão, cruzes espetadas na areia e rosas vermelhas, na praia de Copacabana, zona sul da cidade.

 O objetivo é ajudar a dimensionar o tamanho da tragédia. “As pessoas vêem notícias isoladas, mas quando somamos todos os casos é um quadro de horror”, afirma Antônio. “Não é um exercício de sadismo, para ferir as pessoas. A idéia é despertar a consciência delas para o problema e incentivar para que se envolvam”.

A lição começa em casa. Pedro e Matheus estavam lá em Copacabana e também deitaram no chão em protesto contra a violência ao lado do pai. Mas, muita gente desconhecida também aderiu. O movimento é formado por estudantes, universitários, teólogos e profissionais liberais. Não há ideologia política nem credo religioso. Qualquer um pode participar, basta se inscrever no site e comparecer às manifestações organizadas por Antônio. Ele dá a idéia, que é aperfeiçoada por outros componentes do grupo. O Rio de Paz não tem registro como ONG, nem conta bancária. Todos fazem uma “vaquinha” (doação em dinheiro) e compram o material necessário.

 “O que impressiona é o silêncio dos bons. A gente precisa enfatizar que a massa é suficientemente grande para mudar a história do Brasil. Há uma quantidade enorme de gente de coração bom, que quer ajudar”, diz o coordenador.

POLÍTICAS PÚBLICAS

rio de paz 1Por enquanto, os protestos estão restritos ao Rio de Janeiro, mas a cabeça pensante deste movimento acha que a idéia pode se espalhar. “Eu acredito que isso vai ter uma desembocadura formidável, que vai marcar a história do Brasil. Outras pessoas vão começar a se articular. Passamos muito tempo esperando por um milagre. Atualmente, 70% dos brasileiros são analfabetos. Este não é só um problema de falta de educação/distribuição de renda/impunidade, mas principalmente da ausência do poder público”, defende ele. E é por isso mesmo, que Antônio Carlos cobra providências do governador Sérgio Cabral. “A meta é apresentar um manifesto ao governo com as expectativas do povo para a segurança pública. Soluções de médio e longo prazo têm que ser implementadas, mas aquelas de curto prazo têm que ser pensadas urgentemente. Se isso não acontecer, no final do ano vamos ter que fixar 6 mil rosas na areia. Espero não precisar fazer isso”.

O Movimento Rio de Paz já tem uma nova manifestação em vista para a próxima semana. O coordenador faz o convite a todos que se interessem. “Este é um movimento ‘inclusivista’. Estamos dispostos a caminhar com pessoas diferentes de nós”. Tudo em prol de um lugar melhor para se viver.

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