Solar Meninos de Luz

Publicada em 01/09/2005 no Click 21 

Por Cristina Cople

A primeira vez que vi o Solar Meninos de Luz, fiquei surpresa. Foi por puro acaso que estacionei meu carro bem em frente ao sobrado de paredes verdes no sopé do morro do Cantagalo, zona Sul do Rio. Era domingo e eu ia fazer uma gravação de matéria jornalística para televisão em uma outra instituição bem próxima de lá, o Espaço Criança Esperança. A pauta era interessante, o lançamento do filme de Renato Aragão (Didi quer ser Criança). O elenco todo estaria lá, mas foi a imagem daquela casa que permaneceu na minha cabeça.

Já tinha ouvido falar no Solar Meninos de Luz inúmeras vezes através de colaboradores da instituição, mas nunca tinha me disposto a sair de casa para ir até lá ver como funcionava. Imaginava um local caindo aos pedaços, onde um grupo de almas caridosas distribuía um sopão ou algo parecido… grande engano! Só a fachada já dava uma amostra disso, era grande, bonita e bem cuidada. Voltei durante a semana para ver com meus próprios olhos como aquilo tudo funcionava. Passei o dia em companhia de uma amiga que trabalha lá e tentei armazenar todas as informações que recebi.

A casa simples, mas muito bonita, recebe todos os dias 400 crianças que estudam ali das 7h30 às 18h, divididas em 18 turmas. Promove educação integral, cursos de profissionalização, cultura, esportes e cuidados básicos de saúde. O bebê é matriculado na creche com apenas três meses e é acompanhado até os 18 anos, quando o jovem é encaminhado para um emprego ou para a universidade. O apoio às famílias também faz parte do processo, já que elas enfrentam diariamente a pobreza, o desemprego, a baixa escolaridade e a falta de auto-estima. A exclusão ganha contornos mais dramáticos quando se compara a comunidade com os bairros vizinhos, Copacabana e Ipanema (área nobre e super valorizada do Rio). 

Ações e questões

Mas será que a educação, pura e simplesmente, tem o poder de afastar crianças de comunidades menos favorecidas da marginalidade, do crime ou de um futuro violento?

De acordo com padrões de “assistência a populações em risco” estabelecidos internacionalmente pela Organização das Nações Unidas, o Solar planeja as ações a serem executadas baseado em dados coletados na comunidade e partindo das demandas da população. A idéia é que os moradores da área, de qualquer idade, sejam incluídos em suas diversas oficinas, impedindo que haja tempo ocioso. As ações se dividem em três programas: o Prevenir, o Realinhar e o Familiar.

Um pouco da história da instituição

O surgimento da ONG aconteceu a partir de uma tragédia. Na madrugada da véspera de Natal de 1983, uma grande caixa d´água comunitária desmoronou do alto do morro sobre os barracos, destruindo tudo e matando 12 pessoas. Na manhã do dia 25, Yolanda Maltarolli subiu o morro para prestar auxílio, levando provisões e roupas. O trabalho era imenso e foram necessários vários dias para prestar o auxílio básico para os desabrigados. Após algum tempo, a idealizadora do projeto do Solar Meninos de Luz estava tão envolvida com os moradores da área afetada que decidiu ficar e realizar um trabalho ainda maior. Alguns anos se passaram antes que o Solar Meninos de Luz passasse a existir como associação civil, filantrópica, reconhecida como de “utilidade pública municipal e federal”.

Atualmente, essa enérgica batalhadora passa o dia correndo de um lado para o outro para resolver os problemas do Solar. Principalmente os financeiros.

Os patrocinadores da instituição são o Instituto Paulo Coelho (é, ele mesmo, o mago e imortal!), Furnas, UniverCidade, BNDES, Fundação Vitae, Instituto Pró-Vida, a Prefeitura do Rio e doadores.

Apesar do intenso trabalho para oferecer às crianças das comunidades opções de crescimento e desenvolvimento, o Solar é pouco conhecido porque durante todo esse tempo os dirigentes não queriam fazer alarde de seu trabalho. A equipe formada por professores, médicos, advogados, psicólogos e, principalmente, muitos voluntários, não querem sair “de pires” na mão pedindo contribuições e ainda passar pela desconfiança daqueles que duvidam de qualquer um que tenha um projeto de assistência social.

Muitas formas de contribuição e uma certeza

É claro que toda organização precisa de recursos para manter suas dependências – pessoal, material (didático, de saúde ou limpeza) -, mas há outras formas interessantes de doação. Por exemplo, um advogado pode resolver pequenas pendências jurídicas e analisar contratos de prestação de serviços. Na maioria das vezes, a atividade envolve apenas uma orientação sobre algum assunto que envolva os direitos da ONG. Os médicos podem doar uma única horinha do dia realizando consultas. Um estudante pode organizar a biblioteca ou ajudar a organizar os eventos e festas realizadas para angariar fundos (quem é que não gosta de uma festinha, hein?!!). Os mais velhos também têm chance de ajudar preparando sanduíches para a equipe que realiza obras de manutenção do Solar. E por aí vai… o que não falta é trabalho.

Por isso tudo, quando lembro do Solar Meninos de Luz volto a acreditar que a educação é o bem mais precioso sim. Afinal, quantas turmas já se formaram durante todos esses anos, baixando de forma significativa o percentual de jovens aliciados pelo tráfico e entregues à criminalidade.

No mês de agosto o Solar Meninos de Luz completa 14 anos de funcionamento. O tempo voou, mas ainda há muito o que fazer. Se você tem vontade de ajudar, mas não sabe bem como, entre em contato com o Solar Meninos de Luz e peça orientação. Ou, se preferir, acompanhe esta coluna e escolha a instituição que mais se ajusta ao seu objetivo.

Até a próxima! 

 Recado ao leitor:

  •  Este espaço pretende contribuir para apresentar e aprofundar o debate sobre iniciativas de organizações não-governamentais, assim como práticas de Responsabilidade Social em conjunto com políticas públicas e privadas que colaborem para o desenvolvimento de comunidades carentes e a inclusão social. Sua participação aqui é fundamental.

    Agradecemos, desde já, a sua contribuição.
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