Caronas do álcool

Publicada em 27/03/2008 no Click 21

alcool 1Simulação de um painel visto por motorista embriagado.

Por Cristina Cople

Bebida e direção não combinam – isso muita gente já sabe, embora nem todos levem a sério este alerta. Os acidentes em decorrência do álcool associado ao excesso de velocidade não escolhem vítimas. Motoristas de todos sexos e idades correm risco quando bebem e assumem o volante. Desta vez, porém, vamos falar dos jovens. Por que logo eles?

Uma pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, realizada em 2007, com 1034 universitários, mostrou que 42% dos estudantes de 18 a 30 anos do Rio e São Paulo admitem ter dirigido após beber e 31% vão e voltam do passeio dirigindo, mesmo que tenham bebido um pouco. Deste total, 80% responderam que não dirigem, mas voltam de carona com motoristas que bebem.

Outro dado alarmante diz respeito ao uso de cinto de segurança quando se está viajando no banco traseiro, que é extremamente baixo, pois apenas 11% dos entrevistados sempre usam e 74% nunca fazem uso.

Os especialistas advertem que a partir de três latinhas de cerveja a coordenação motora de uma pessoa já está comprometida. Com mais de quatro, ocorre a diminuição da visão periférica e redução da percepção de obstáculos.

CASOS TRAUMÁTICOS

Fernanda Carlos, 28 anos, mãe de uma menina de 10, foi uma dessas vítimasalcool 2 de motoristas alcoolizados. Ela sofreu um grave acidente automobilístico no bairro de Anchieta, zona norte do Rio, e hoje necessita do auxílio de uma cadeira de rodas.

“Conversa comigo! Não fecha os olhos, Fernanda! Dizia, desesperada, a minha mãe”, descreve a moça. A história relatada a seguir talvez seja mais comum do que se possa imaginar.

Os sonhos não foram interrompidos, mas adiados. Fernanda quer estudar, se formar em educação física e trabalhar. Porém, ela acredita que com o número cada vez mais elevado de acidentes envolvendo jovens merecia uma resposta mais enérgica das autoridades públicas.

“Deveria haver blitz durante a madrugada, porque o motorista alcoolizado perde o reflexo, a noção do perigo, se sente mais corajoso e, como no meu caso, não aceita opinião”. Agora, Fernanda vai tirar sua própria carteira de motorista, mas quer alertar quem vai a festas e pensa que pode voltar para casa dirigindo. “Se for beber é para dormir na casa do amigo, no local da festa”.  Leia mais sobre a experiência de Fernanda no fim do texto.

Jovens querem limites 

alcool 3Estradas não colaboram – a erosão marca o novo trecho da rodovia BR 060, que vai de Brasília a Goiânia. Foto: Antonio Cruz/Abr.Durante uma pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, o Dr. Marcos Musafir descobriu dados curiosos sobre o comportamento dos jovens no trânsito. Segundo o médico, eles querem ter mais limites.

Os jovens acharam importante ter mais orientação e receber limites de um poder superior, de preferência governamental. Eles também acreditam que, se houver punições severas, tomarão mais cuidados”, diz Marcos Musafir.

O médico acredita que a grande maioria das vítimas de motoristas alcoolizados não acredita estar correndo risco, porém os dados são alarmantes. Pesquisa realizada em IMLs de todo país revela que 60% dos jovens vítimas de trauma no trânsito apresentavam álcool no sangue.

“Por conforto ou talvez por comodidade, o jovem aceita carona de alguém que bebeu, mas não acredita que possa sair ferido em caso de acidente. É importante estabelecer um diálogo para que eles compreendam que o trânsito é um ambiente de risco e que no carro todos podem se ferir. Como o jovem se arrisca mais quando está em grupo, a ‘tribo’ deve mudar de comportamento, mas isso só acontece quando um deles sai ferido ou as leis se tornam mais rígidas”, diz.

No próximo dia 31, o Dr. Marcos Musafir participa da reunião da Organização Mundial da Saúde, na ONU, para elaborar uma resolução destinada a prevenção do uso do álcool pelo público jovem. “Estamos caminhando para tornar o trânsito mais cidadão, mas esse é um trabalho de formiguinha”, diz.

‘AMIGO DA VEZ’  O especialista em trânsito Fernando Pedrosa trabalha pela conscientização no trânsito há anos e elaborou a campanha ‘Amigo da Vez’. A idéia é que ao sair para um bar, uma pessoa fique sem beber para levar os amigos de volta em segurança.

A abordagem dos jovens consumidores é feita em bares de uma forma divertida. Atores faziam uma encenação e distribuíam kits com camiseta e adesivo para os amigos da vez. “Hoje o conceito já está consagrado, a idéia é difundida por ONGs e governos de várias cidades”, diz.

Agora, Fernando Pedrosa participa de grupos de discussão sobre a medida provisória do governo federal que proíbe a venda de bebidas alcoólicas nas estradas.

“A maioria dos especialistas concorda que o importante é combater o perigo, por isso é preciso coibir o condutor alcoolizado e não o estabelecimento. De qualquer forma, a proposta do governo é importante para reaquecer o tema, mas mais importante do que medidas restritivas é a conscientização. A pessoa deve escolher não beber por fazer uma opção pela vida. A fiscalização seria apenas um acessório para quem não captou a mensagem”, completa.

Conheça a experiência de Fernanda e emocione-se

Aquele era o dia das mães, 9 de maio de 2004. O dia do acidente que mudou a minha vida por causa de um motorista alcoolizado. Uma amiga e vizinha passou lá em casa e convidou para ir a pracinha que fica perto, mas ela sugeriu que a gente fosse de carro. Vimos que meu primo estava conversando com uns amigos do outro lado da rua e achamos que ele poderia dirigir. Eu ainda tinha que pedir o carro pra minha mãe, mas insisti tanto que ela acabou emprestando, um pouco contrariada, já que meu primo tinha carteira, mas costumava correr.

No caminho ele ficava fazendo palhaçada e aumentava a velocidade. Eu dizia: vai devagar! Mas ele respondia que não estava correndo. Quando passamos pela estação Anchieta, ele perdeu o controle do carro e bateu na mureta. Antes do impacto, fechei os olhos e pensei “seja o que Deus quiser”.

Apaguei.Minutos depois acordei e ainda estava dentro do carro, sentada no banco do carona. Com o impacto, caí entre o painel e o banco, mas as pessoas que nos socorreram me puxaram e me sentaram.

 

Sentia uma dor tão intensa que mal conseguia pensar. A dor era resultado das costelas quebradas. Todo mundo já estava fora do carro, menos eu. Não conseguia sentir as pernas e minha primeira reação foi dizer para a minha amiga, ‘pega o telefone e liga para minha mãe’. Nessas horas, tudo o que a gente mais quer é a mãe perto da gente.  Quando ela chegou, ficava com medo de que se eu perdesse os sentidos e acabasse morrendo, então queria conversar comigo. Minha mãe entrou no carro e sentou no banco do motorista, mas apenas o balanço do carro me fez sentir uma dor tão horrível que eu sussurrei: “Sai, sai, sai, que eu não estou agüentando!” “Conversa comigo! Não fecha os olhos! Disse minha mãe”.

Eu fiquei quietinha, mas acordada, porque não tinha forças pra falar.Foram duas horas de espera, enquanto o poder público decidia se uma ambulância de outra região podia vir me pegar. Quando eu finalmente escutei a sirene, lá longe, olhei pra minha mãe e apaguei. Os paramédicos me tiraram do carro, rasgaram as roupas, prestaram os primeiros socorros e me levaram para o Hospital da Posse, em Nova Iguaçu.

 

O hospital não queria me receber porque estava lotado, mas tive uma parada cardíaca na porta e não teve jeito. Se não me levassem para dentro eu morria ali mesmo. Passei um mês no hospital, fui operada por causa de várias costelas quebradas e hemorragia interna. Meu pulmão estava cheio de sangue. Também me disseram que eu estava paraplégica. Nos primeiros dias, o pior foi aceitar que tinha que usar a cadeira de rodas.

Não queria nem olhar para ela.Meu pai, minha mãe e minha irmã ajudavam. Graças a Deus eles ficaram comigo. Alguns vizinhos e amigos também ajudaram, mas eles não me deixaram um só minuto. Enquanto eu estava internada, o meu primo nunca foi me ver.

 

A gente perguntava por ele para as pessoas que iam ao hospital e eles diziam que estava em um churrasco com amigos. Ele justificava dizendo que bebia para esquecer os problemas. Na verdade, descobrimos que, no dia do acidente, ele também tinha passado o dia todo em um churrasco bebendo. Os bombeiros disseram que cheirava a cachaça. Quando meu primo finalmente veio me visitar. Eu disse pra ele que não tinha que esquecer, o problema estava ali, na frente dele… tinha é que fazer tudo para ajudar. Não é para me bancar não, mas se mostrar interessado.

Ele também acabou com o carro da minha mãe e sequer se ofereceu para ajudar a comprar outro. Hoje, tenho dificuldade para ir à fisioterapia na ABBR (Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação) e quando não tem quem me leve, não vou.

De qualquer forma, já estou bem melhor. Consigo trocar de roupa, tomar banho e pentear os cabelos sozinha. Tive que conhecer pessoas na mesma situação para entender.

Nada acontece por acaso. Hoje, até namorar já consigo. Pensava que nunca mais ninguém ia querer namorar comigo, mas percebi que as pessoas conseguem gostar da gente assim. Eu tenho sentimentos como qualquer outro.

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