Bastidores de uma gravação em Belo Horizonte

Belo Horizonte, 04 de novembro de 2010

Cheguei a Belo Horizonte ontem, noite de quarta-feira, por volta de 22h50. Não consegui seguir diretamente para o hotel porque um outro passageiro que seguiria na mesma Van não havia desembarcado. Enquanto esperávamos o tal passageiro, pude conhecer um personagem interessante. Seu nome era Paulo. O profissional da agência de turismo que me esperava para levar ao hotel Dayrell.

Paulo é um jovem de vinte e poucos anos, 1m90, cabelos castanhos e jeito gentil de falar. Ele havia retornado de Toulouse, na França, há aproximadamente dois meses, e, para não ficar parado, logo começou a trabalhar como receptivo de uma agência de turismo no aeroporto de Confins, em Minas Gerais.

O rapaz disse que passou dois anos na França e comeu o pão que o diabo amassou. Teve problemas financeiros, sentiu falta da família e ainda se decepcionou com seu grande amor. Para sobreviver, ele trabalhou como pedreiro e finalizador de esquadrilhas e janelas da construção civil. Também trabalhou em um restaurante.  Lá conheceu uma psicóloga de família abastada que lhe roubou o coração. Nos dois anos que passaram juntos, foram inúmeras juras de amor e promessas de felicidade eterna. Quando ele finalmente conseguiu juntar dinheiro para rever a família (detalhe: já estava noivo da sujeita!) ela pressionou para que ele ficasse menos tempo no Brasil. O plano inicial de Paulo era passar apenas quarenta dias revendo amigos e parentes e resolvendo pendências burocráticas na sua cidade natal. Ela queria que ele passasse apenas vinte. A moça não quis nem saber. Brigou com ele por telefone e o acusou de estar se casando com ela por interesse em conseguiu o visto europeu (o que permitiria que ele permanecesse na Europa por tempo indeterminado). Esse comentário, especificamente, feriu de morte o coração do jovem Paulo.

Ele afirmou categoricamente que a história não tem mais volta.  Segundo ele, a moça disse coisas tão horríveis que não dá para esquecer. Mas como o amor não tem memória nem razão… talvez um dia ele volte a viver fora do país e reencontre sua ex.  Paulo diz que reconhece o rompimento como um “sinal de Deus” e vê que foi melhor assim. Se ele diz…

Menos de dez minutos depois dessa breve, mas intensa descrição dos dois últimos anos de sua vida, ele salta da van numa esquina movimentada da avenida expressa que liga Confins a Belo Horizonte. Tchau, a gente se vê por aí! Diz ele. Com uma história tão interessante e tão bem contada, já ficou gravado na memória.

Chegando ao hotel, surpresa!!!! Não havia reserva em meu nome e já eram quase meia noite. Detalhe: eu teria que levantar às 6h da manhã no dia seguinte para viajar para Sete Lagoas, a aproximadamente 100 quilômetros da capital.

Depois de muita conversa e alguns contatos estratégicos na recepção do hotel, encontrei com uma das coordenadoras do evento e consegui um quarto. Quase morri de medo de pedirem que eu dividisse o quarto com uma das concorrentes ao prêmio de melhor intérprete/compositora do Sesi Música. Enfim, acabei sozinha, no meu quarto gigantesco, com três camas de solteiro, closet, banheiro (maior que a sala da minha casa) e frigobar.

Não que isso seja um problema. Adoro quartos de hotel, com bastante espaço para me espalhar.

Na quinta-feira, hoje, o despertador tocou cedo e não pude acreditar que já era hora de pular da cama. Dormi tão bem… será que a minha insônia é fruto do colchão de casa? Será a proximidade com os problemas do dia-a-dia?

A parte boa de uma viagem tão cedo é que dá para dormir de babar sem parecer indiferente ao sofrimento do pobre motorista que vai te levar até o local. Chegamos à fábrica da Comam, indústria de peças para a indústria automobilística, na hora certa e fomos gentilmente recebidos pelo Fabiano, um mineiro bom de prosa que só…

Lá entrevistei o Gleison Juliano, bicampeão do Festival Sesi de Música. Fiquei muito impressionada com o talento dos trabalhadores da indústria, escondido pelo barulho de máquinas pesadas. O cara conseguiu se destacar entre centenas de candidatos e agora pretende continuar fazendo aulas de canto e expressão corporal para tentar a vida artística. Seja como for, já abriu seus horizontes e começou a sonhar mais alto. Só por isso o festival já valeu a pena. Interessante ver também que há indústrias que acreditam que fazer o funcionário feliz também gera lucro para as empresas. O caso de Gleison comprova isso. Ele elevou a produção de 250 para 270 peças/hora. Quando participa de oficinas, o funcionário é liberado do trabalho e pode repor as horas perdidas durante a semana. Responsabilidade social também gera lucros.

Foi um dia bom. Fiquei feliz com isso.

Foro Permanente de Reflexão sobre a América Latina

Para quem estuda integração regional, vale a pena dar uma olhada na série de debates promovidos pelo Memorial da América Latina, em São Paulo.

2º PROGRAMA

O Memorial da América Latina e o Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo – PROLAM/USP convidam para o 2º encontro do projeto Foro Permanente de Reflexão sobre a América Latina.

Nesse encontro a pesquisadora Sônia Maria Geraldes discutirá a vulnerabilidade feminina à AIDS, no contexto da Síndrome no Brasil e no México . Tendo como plano de trabalho quatro momentos ou discursos: o médico, o jornalístico, o preventivo e o vivido (das portadoras),   apresentará um olhar crítico sobre as contribuições dos diversos atores da Síndrome.

Conferencista : Dra. Sônia Maria Geraldes (Médica infectologista, com mestrado em Informação e Sociedade pelo PROLAM/USP, atua na Secretaria de Saúde do Distrito Federal, nas áreas de Planejamento e Assistência)

Coordenadora da mesa : Profa. Dra. Cremilda Medina (PROLAM/USP)

Debatedor : Prof. Dr. José da Rocha Carvalheiro (Médico, Professor Titular da USP, atualmente participa do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde – CDTS e é Assessor da OMS e do Presidente da Fiocruz)

30 de agosto de 2010 (segunda-feira), 19h

Fundação Memorial da América Latina

Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664 – Metrô Barra Funda

São Paulo / SP

Entrada franca

Informações

www.memorial.sp.gov.br

cursos@memorial.sp.gov.br

Tel.: (11) 3823-4780

Coisas que só acontecem no Nordeste

No Tocantins, conheci um cearense do tipo amável, bem humorado, mas bravo que só…Esse moço contou uma história que deixou seus interlocutores de cabelo em pé. Certo dia, ele estava viajando de moto, com um conhecido na carona, quando viu um carro enguiçado na beira da estrada, ao lado de uma barraca de bebidas. O motorista se esforçava para tentar consertar o motor.

O cearense em questão parou para ajudar e começou a mexer no motor, já que ele tem uma oficina mecânica e entende de carros como ninguém. Enquanto isso, o carona aproveitava para beber alguma coisa na barraquinha ao lado. Segundo ele, quando estava de cabeça baixa, olhando para o motor do carro, o “cabra” sacou um facão e deu-lhe uma pancada tão forte na cabeça que ele teve traumatismo craniano. Antes de despencar no chão, o narrador da história ainda teve tempo de sacar uma pistola e disparar dois tiros. O agressor conseguiu fugir e a vítima ainda subiu na moto e dirigiu até o posto de saúde mais próximo, quase 100km do local.

O motivo da agressão não poderia ser mais absurdo. O dono do carro enguiçado queria acertar contas com o carona do nosso amigo cearense, mas o dono da barra de bebidas disse que ele só conseguira acertar o alvo se matasse o cearense primeiro, já que ele era violento e poderia impedir o crime. Ou seja, o cearense teve a cabeça rachada só para facilitar o atentado contra uma outra pessoa. Porém, o tiro saiu pela culatra, literalmente!

O cearense não só sobreviveu, como ressurgiu do trauma com uma raiva latente contra o seu agressor. Ele busca o “cabra da peste” por todo o Nordeste e já disse que “até mesmo se Jesus Cristo voltasse à terra e pedisse que ele perdoasse o rapaz, ele não faria isso”.  O alvo sumiu do mapa, mas o cearense é paciente… Apesar disso, ele diz que é espírita kardecista e frequenta um centro espírita semanalmente. Depois de muita conversa, ele topou pelo menos repensar sua posição, já que nada poderia ser mais contraditório! Esse é o típico estereótipo do comportamento do nordestino – do homem que não procura briga, mas – se provocado – adere ao ditado “olho por olho, dente por dente”. Se pelo menos desta vez ele decidir não revidar, o ciclo de violência poderá ser interrompido.

Fim de semana no PA Jambeiro

No dia 12, dia dos namorados, trabalhei em um evento no Projeto de Assentamento Jambeiro. Apesar do trabalho duro, foi muito gratificante poder estar perto das crianças e relembrar algumas brincadeiras tradicionais. Na salinha improvisada, em uma parte da varanda da escola, brincamos de “Adoleta” e “Polícia e Ladrão”. 

Filhos de agricultores familiares, os meninos conhecem muito bem a realidade em que vivem e sonham com voos mais altos. Vou sentir saudades.

Unb realiza seminário ‘Comunicação comunitária e sustentabilidade local’ em Paracatu/MG

No último sábado (24 de abril), a Universidade de Brasília realizou o seminário Comunicação Comunitária e Sustentabilidade Local no município de Paracatu, noroeste de Minas Gerais.

O seminário, promovido pela Faculdade de Educação da UnB, teve como objetivo discutir a Memória, Educação Patrimonial e Sustentabilidade da região. Contudo, a polêmica em torno da permanência da mineradora canadense Kinross no município tomou conta das discussões.

O Procurador de Justiça Serrano Neves ressaltou que a importância econômica da empresa para o orçamento do município é irrelevante frente aos danos causados ao meio ambiente e à saúde da população. 

De acordo com informativo da Fundação Acangaú, de abril de 2010, um estudo realizado pela pesquisadora Patrícia Rezende, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), comprova que a mineradora polui as águas de Paracatu com arsênio. A concentração de arsênio nos córregos e rios de Paracatu variavam entre 150mg por quilo e 1000 mg por quilo, o que corresponde a uma concentração 190 vezes maior do que a estipulada pela legislação do Conselho Nacional de Meio Ambiente, o Conama.

A pesquisadora Laure Terrier, palestrante da Universidade de Paris,  questionou o fato da Câmara Municipal de Paracatu ter em mãos uma pesquisa científica de 2008, que comprova a contaminação, e ainda não ter tomado medidas para proteger a saúde da população.

A vereadora Maria das Graças Caetano Jales se comprometeu a pressionar os demais vereadores para agilizar a verificação desta denúncia. No fim do evento, o diretor e produtor de TV Alessandro Silveira de Carvalho apresentou o documentário Ouro de Sangue, que mostra a dura realidade da população que vive no entorno da mina de ouro.

Ouro de Sangue

Retomando a simplicidade

A consultoria ambiental me deu a oportunidade de mudar de endereço mais uma vez. Depois do Nordeste, iniciei um grande trabalho de comunicação em Minas e Goiás. Para realizar o trabalho de campo de uma usina hidrelétrica me mudei de mala e cuia para o município de Paracatu, em Minas Gerais. A primeira impressão é de estranhamento.

A cidade histórica tem ruas estreitas, trânsito enlouquecido e faixas de pedestre sem sinal de trânsito. Nos fins de semana, os moradores simplesmente desaparecem das ruas – viajam ou ficam em casa – o que deixa Paracatu com o aspecto de uma cidade fantasma. Não há muito o que fazer, a não ser cozinhar e organizar a casa. Por outro lado, a fachada das casas históricas encantam os visitantes com suas janelas em estilo colonial. A igreja Matriz e o chafariz do período das bandeiras são preciosidades arquitetônicas.

No site da Prefeitura Municipal, Helen Ulhôa Pimentel descreve bem a história de Paracatu.

Ela diz: “Segundo o historiador Antônio de Oliveira Mello, a região Noroeste de Minas Gerais foi visitada, conhecida e perscrutada desde o final do século XVI. Ele reuniu indícios de que as bandeiras de Domingos Luis Grau (1586-1587), Antônio Macedo (1590), Domingos Rodrigues (1596), Domingos Fernandes (1599) e Nicolau Barreto (1602-1604), palmilharam esta região.

Em 1744 os bandeirantes Felisberto Caldeira Brant e José Rodrigues Frois comunicaram à coroa o descobrimento das minas do vale do Paracatu.[2] Existem indícios de que o arraial já havia sido fundado muitos anos antes, pois a essa época já se tem conhecimento da existência de casas de morada e igrejas no local. Após essa descoberta, não surgiu no cenário das Gerais nenhuma nova região aurífera de importância. Portanto, ”A última grande descoberta aurífera das Minas Gerais ocorreu no Vale do Rio Paracatu no início do século XVIII”.

Em meados do século XX, com a construção de Brasília, a região tomou novo impulso e Paracatu beneficiou-se da sua situação às margens da BR 040. (…)
Paracatu conta hoje com uma agricultura altamente tecnificada, implantada em larga escala; com uma pecuária intensiva; uma exploração mineral das mais modernas do mundo; convivendo com uma exploração agrícola rudimentar de subsistência e uma pecuária extensiva. No campo da mineração, o antigo método do garimpo foi interditado
.”

Na zona rural, há pelo menos cinco assentementos do Incra. É muito interessante conhecer a realidade de ex-integrantes do Movimento dos Sem Terra após o assentamento. Muitos deles trabalharam o solo com calcário (para corrigir a acidez) e transformaram o lote improdutivo em lavouras em forma de mandala. A produção de morangos, milho, arroz e pimenta é feita de forma alternada para não esgotar o solo. O trabalho duro, debaixo do sol forte e do clima seco do serrado deu resultados impressionantes.

Bar da Cobra

Bar da Cobra vista geralNo carro, durante a viagem de Brejo Santo para Abaiara, nosso guia local, Cicero Bacural, contou que conhecia um bar na estrada onde os proprietarios criavam uma cobra solta. Ele disse que a cobra ficava por la e varios clientes ja haviam derrubado mesas por causa disso.

Quando chegamos a Abaiara paramos no bar, nao vimos a tal cobra. Quando perguntei ao proprietario, Sr. Espedito, ele confirmou que ela estava na cozinha e perguntou se eu queria ve-la. Quando disse que gostaria de ver o animal, ele trouxe uma caixa de madeira com furos na tampa e pediu que eu olhasse pelos buraquinhos.

Quando cheguei perto, ele abriu a portinha e ela saiu. Dei um berro! So que a cobra era de madeira, uma brincadeira para pegar os turistas desavisados… Depois disso foram horas de piada e muita risada por conta do meu escandalo.

O Sr. Espedito contou que alguns clientes, querendo “fazer o mal”, denunciaram para o Ibama que eles criavam uma “cobra” no bar. Uma equipe do instituto saiu do Crato ate Abaiara para apreender o animal. Ao chegarem ao local, os tecnicos perguntaram pela cobra e disseram que estavam ali para leva-la. O proprietario apresentou a mesma caixa… o susto foi grande e o trabalho do grupo terminou por ali mesmo.

Vale a pena dar uma paradinha no Bar da Cobra quando passar por Abaiara, no Ceara. Boa viagem!