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Conheça o trabalho da Ong ‘Doe seu Lixo’

Publicada em 21/09/2005 no Click 21 

Por Cristina Cople

isabel-fillardisHá algum tempo uma campanha surpreendia os entrevistados nas ruas das principais capitais brasileiras, assim como as pessoas que assistiam ao vídeo pela televisão.

A pergunta que o ‘repórter’ fazia era: “Onde você guarda o seu racismo?”

Poucos ousavam admitir que, embora contrariados, eram racistas sim e tinham preconceito seja contra a cor da pele, estado de origem ou posição social.

Para quem não tinha se dado ao trabalho de questionar de onde surge uma idéia tão boa, lá vai uma informação interessante. A campanha de conscientização é coordenada por instituições respeitadas e bem conhecidas do público em geral. A lista é grande: Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), Observatório da Cidadania, Abong (Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais), Action Aid Brasil, AMB (Articulação de Mulheres Brasileiras), Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras, Cesec/UCAM (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania – Universidade Candido Mendes), Cfemea (Centro Feminista de Estudos e Assessoria), Comunidade Bahá’í, Criola, Fase (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional), Geledés / Instituto da Mulher Negra, Inesc (Instituto de Estudos Sócio-Econômicos), Instituto Patrícia Galvão, Redeh (Rede de Desenvolvimento Humano) e Rede Dawn.

O objetivo dessas peças publicitárias é fazer com que população pare e pense. Dessa forma, pode ser que a atitude de muita gente mude frente aos desafios da convivência e da desigualdade social que enfrentamos neste país. Os resultados não são imediatos, mas lentamente é possível que se construa a possibilidade de convivência. De acordo com a pesquisadora Glória Moura, em artigo no site consciência.net, mais de 70% da população brasileira possui sangue africano nas veias. Muita gente nega, é claro! Mas, concordando com a pesquisadora de Brasília, faço coro às suas palavras: para valorizar a cultura afro-descendente o caminho é “estudar, ouvir e ler para esclarecer”.

Mas… e quando o racismo se apresenta na forma de um morador de rua? Quem nunca pensou, ou pelo menos ouviu, um comentário do tipo: se você oferecer um emprego, ele não quer! Só quer saber de pedir dinheiro nas ruas. Gosta mesmo é da moleza, da vadiagem… etc. Você é capaz de estender a mão para uma pessoa suja e malcheirosa para um cumprimento? Eu, que não sou melhor que ninguém, já me encontrei nessa situação constrangedora inúmeras vezes. 

Existe uma Ong que prova que morador de rua quer emprego sim! Na verdade, tem muita gente que só precisa de uma chance para provar que tem valor e quer crescer na vida. E é exatamente essa tão escassa chance que a Ong “Doe seu Lixo” oferece, além de contribuir para a saúde do meio ambiente. Olha que maravilha!

A organização, idealizada pela atriz Isabel Fillardis e o marido dela, o empresário Julio César, recebe papel, plástico e latinhas em forma de doação para revender no mercado de reciclagem. Os funcionários da Ong são ex-moradores de rua que trabalham de segunda a sexta, no horário comercial.

A Ong aproveita a parceria com eventos e shows para recolher os rejeitos, além de fazer acordos com grandes empresas nacionais. No site, podemos encontrar os objetivos principais de sua existência: promover inclusão social, cooperação, auto estima, cidadania e geração de renda. Além disso, a “Doe seu Lixo” também implementa programas de educação ambiental para escolas; promove a parceria entre empresas, poder público e sociedade civil; realiza eventos culturais ligados à temática do lixo; incentiva a classe artística a contribuir como formadora de opinião e valoriza o voluntariado.

De acordo com a Ong, o país produz cerca de 90 mil toneladas de lixo por dia, o que corresponde a cerca de mil caminhões cheios de lixo. A quantidade de lixo que produzimos no Brasil por semana é igual a um estádio de futebol do tamanho do Maracanã. Assim, o setor de reciclagem tem potencial para empregar 150 mil pessoas e as recicladoras faturam cerca de R$ 55 milhões anualmente.

Júlio César é o presidente da Ong “Doe seu Lixo” e principal responsável pela contratação de pessoal, além da administração das vendas dos resíduos. O empresário de sucesso conta que começou a realizar trabalhos de ajuda social quando ainda era noivo da atriz Isabel Fillardis. Durante a infância, os dois puderam ver de perto o sofrimento de pessoas necessitadas e sonhavam poder ajudar aos menos favorecidos. Então, Júlio e Isabel começaram a prestar assistência aos moradores de rua e desabrigados que vagavam pela região próxima à sua casa, na zona Oeste do Rio de Janeiro. Eles compravam mantimentos e roupas com o dinheiro do próprio bolso. Depois de algum tempo, o número de pessoas foi crescendo tanto que a ajuda se tornou insustentável. O casal gastava uma quantia muito alta e não tinha como continuar financiando o pequeno projeto. A partir daí, eles decidiram fazer o trabalho de forma organizada, criando a Ong e pedindo ajuda a outras empresas/instituições que quisessem participar.

Assim surgiu a “Doe seu Lixo”, que realiza a capacitação de um público-alvo formado por moradores de baixa renda. Transformá-los em agentes de saneamento ambiental é a chave para o desenvolvimento das ações complementares dos projetos desenvolvidos pela organização.

Atualmente, 45 pessoas trabalham na coleta de ‘lixo’, atuando dentro de grandes empresas. Esses funcionários são cooperativados e recebem por hora trabalhada, o que diminui os custos da empresa com eliminação do lixo. Cada funcionário dá cabo de duas toneladas de lixo por mês! A “Doe seu Lixo” providencia o uniforme e material utilizado na coleta, além de fazer toda a organização da programação de trabalho do mês.

Eu mesma pude ver como esses cidadãos conseguem mudar de vida ao voltar ao mercado de trabalho. Um ex-morador de rua, que vou chamar de João, era alcoólatra e vivia nas ruas do Rio. Abandonado pela família e com um sério problema de saúde, ele sequer conseguia tratamento adequado por falta de apoio para seguir comprando os remédios. Meses depois de começar a trabalhar na cooperativa, a mudança é significativa. Acompanhei parte do trabalho de descarregamento de dois caminhões com papel em uma usina de reciclagem. Tímido, mas muito educado, João conta que a organização ofereceu a chance que ele precisava para sair das ruas. Meses depois de entrar na cooperativa, João já tinha conseguido alugar a pequena casa onde começava a reconstruir sua vida. O problema de saúde estava sob tratamento, mas a diferença é que agora ele tem uma chance de voltar a levar uma vida digna. As histórias de superação são muitas e faltaria espaço para todas.

Se você conhece alguém que precise de uma chance ou trabalha em uma empresa que se interesse em doar os resíduos, entre em contato com a organização pelo site www.doeseulixo.org. Um pequeno impulso pode ser tudo o que uma pessoa precisa para voltar a caminhar.